Áudio revela pressão para ocultar falhas em aviões da Voepass
Gravação inédita mostra funcionário orientando piloto a não registrar problemas técnicos para manter aeronave em operação. Prática reforça conclusões sobre cultura de negligência na empresa após tragédia de Vinhedo.

Gravação comprova orientação para não reportar panes
Uma gravação obtida pela EPTV, afiliada Globo, expõe a rotina problemática dentro da Voepass. No áudio, um funcionário da manutenção instrui um piloto a não comunicar uma falha identificada durante o voo, evitando que a aeronave fosse retirada de operação por necessidade de conserto.
Na conversa, o funcionário menciona não registrar um problema no sistema PACK, componente responsável pelo ar-condicionado e pressurização da aeronave. O objetivo era impedir que a situação gerasse uma sigla conhecida na aviação como AOG (Aircraft on Ground), que indica quando um avião precisa permanecer em solo para manutenção.
Piloto relata situação recorrente
O piloto que recebeu a orientação pediu anonimato ao falar com a emissora. Ele afirmou que esse pedido ocorreu poucos meses após o desastre de Vinhedo e que solicitações semelhantes eram frequentes na companhia aérea.
O relato corrobora as conclusões do Cenipa, órgão responsável pela investigação de acidentes aéreos no Brasil. Durante apresentação do relatório final sobre a queda do ATR 72 em Vinhedo, investigadores apontaram que a empresa mantinha uma "cultura de normalização de desvios" em suas operações.
Investigadores confirmam prática sistemática
Segundo o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador do Cenipa, era comum a empresa pressionar para que falhas não fossem registradas formalmente, especialmente quando havia atrasos nos prazos de correção. Funcionários que insistiam em fazer o registro adequado enfrentavam resistência dentro da organização.
Um ex-funcionário da Voepass também relatou, em documentário produzido pelo G1, que uma falha na aeronave que caiu foi omitida do diário de bordo horas antes da decolagem fatal.
Acidente que chocou o país
O voo 2283 caiu em Vinhedo, São Paulo, em 9 de agosto de 2024, matando todas as 62 pessoas a bordo. O acidente foi o mais grave da aviação brasileira desde 2007. A aeronave saía de Cascavel, no Paraná, com destino a Guarulhos.
Posicionamento da empresa
A Voepass informou que não teve acesso à gravação e que sua empresa possuía sistemas formais de comunicação de falhas, com equipes orientadas a seguir rigorosamente os procedimentos. A companhia afirmou que, em mais de 30 anos, sempre adotou padrões internacionais de segurança.
Com informações de G1 Paraná