Futebol mexe com energia: como os jogos do Brasil afetam o consumo de eletricidade no país
Durante as partidas da seleção brasileira, milhões de pessoas frente à TV causam oscilações no consumo de energia que desafiam técnicos de Itaipu. A usina ajusta geração em tempo real para manter o equilíbrio do sistema.

Quando o Brasil joga, a energia também muda de ritmo
Os jogos da seleção brasileira provocam mudanças visíveis no consumo de eletricidade em todo o território nacional. Esse fenômeno, conhecido como "efeito torcida", exige operações especiais da Usina de Itaipu Binacional, responsável por grande parte da energia fornecida ao país, para garantir o abastecimento sem interrupções.
O padrão é previsível: conforme a partida se aproxima, o consumo começa a diminuir. As pessoas chegam em casa, abandonam outras atividades e se posicionam diante dos televisores. Durante os 45 minutos do primeiro tempo, a demanda por energia atinge seu ponto mais baixo do dia.
O intervalo é o grande desafio
O intervalo é quando a coisa muda de verdade. Logo após o apito do árbitro, milhões de brasileiros saem simultaneamente da frente da tela. Vão à cozinha, abrem geladeiras, ligam fornos, chuveiros e diversos outros eletrodomésticos. Esse comportamento em massa provoca um aumento brusco na demanda energética.
"Identificamos um padrão muito claro de comportamento durante essas transmissões. No intervalo, quando as pessoas interrompem a visualização, elas simultaneamente acionam vários aparelhos na residência. Isso gera um pico de consumo que exige preparação prévia do sistema", explica Rodrigo Pimenta, superintendente de Operação de Itaipu.
Após o encerramento da partida, a demanda continua a crescer à medida que os consumidores retomam gradualmente suas atividades normais.
Operação de precisão em Foz do Iguaçu
Para lidar com essas flutuações, a Itaipu executa um plano operacional especial que tem início cerca de duas horas antes de cada jogo e se estende por mais duas horas após o apito final. Durante esse período, a usina ajusta sua geração de energia em tempo real, coordenando-se com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
O objetivo é manter o equilibrio entre oferta e demanda, evitando sobrecargas na rede integrada de distribuição nacional.
Números que impressionam
Os dados revelam a magnitude do fenômeno. Na estreia do Brasil contra Marrocos, Itaipu reduziu seu fornecimento em 7% na hora que antecedeu o confronto. Quando o jogo terminou, a usina precisou aumentar a geração rapidamente, recuperando 4.307 megawatts em apenas 21 minutos. Esse volume é equivalente ao consumo médio de toda a população do Rio Grande do Sul.
Na partida contra o Haiti, o efeito foi ainda mais intenso. Em 40 minutos antes do jogo, a redução atingiu 17% do fornecimento. Após o apito final, Itaipu elevou a geração em 7% em apenas 14 minutos para acompanhar o retorno do consumo.
Especialistas estimam que o impacto será ainda maior nos jogos decisivos disputados durante o período da tarde, quando o consumo de energia já é naturalmente mais elevado.
A capacidade de Itaipu
A flexibilidade operacional de Itaipu permite que a usina aumente ou diminua sua geração em poucos minutos através das chamadas "rampas de carga". Com 20 unidades geradoras, cada uma delas capaz de abastecer uma cidade do porte de Curitiba, a usina possui infraestrutura estratégica para responder rapidamente a essas variações.
A Sala de Controle funciona ininterruptamente, 24 horas por dia, sete dias por semana, com equipes monitorando continuamente o sistema. Mesmo durante os jogos da seleção, a operação segue seu ritmo normal, garantindo que milhões de brasileiros acompanhem as partidas sem riscos de falta de energia.
Ainda que os jogos da seleção paraguaia também causem oscilações no consumo energético, o impacto é praticamente imperceptível, já que a demanda do Paraguai representa apenas cerca de 4% da carga do sistema brasileiro.
Com informações de G1 Paraná