Especialista explica por que crianças choram e alerta sobre violência: caso em Francisco Beltrão reacende debate
Pesquisadora da UFBA explica que o choro é forma legítima de expressão emocional infantil. Caso de agressão a criança no sudoeste do Paraná traz à tona estatísticas preocupantes sobre violência doméstica contra menores.

Choro infantil: expressão legítima, não comportamento inadequado
O choro é um mecanismo fundamental que crianças utilizam para se comunicarem quando ainda não desenvolveram plenamente a capacidade de expressar-se através da linguagem verbal. Segundo Juliana Prates, doutora em Estudos da Criança e docente da Universidade Federal da Bahia, essa manifestação é frequentemente interpretada de forma incorreta pelos adultos.
"Muitas vezes, o choro é entendido socialmente como birra ou má criação, quando na verdade reflete a falta de repertório emocional da criança para lidar com suas frustrações", explica a pesquisadora. Nessa fase do desenvolvimento, as crianças ainda não possuem mecanismos adequados de autorregulação emocional que não passem pelo choro.
Agressão em Francisco Beltrão traz caso à tona
A discussão ganhou relevância após um pai ser filmado chutando sua filha de três anos em Francisco Beltrão, cidade no sudoeste paranaense. O incidente, registrado por câmeras de segurança no último domingo, resultou na prisão preventiva do homem nesta quinta-feira. Em seu depoimento à polícia, o agressor alegou ter agredido a criança porque ela estava chorando.
A mãe da menina soube do ocorrido pelas redes sociais, dois dias após o crime. Um empresário presenciou a agressão e tentou intervir no momento. A polícia identificou um histórico de violência contra as crianças que vivem com o suspeito, incluindo seu enteado de cinco anos.
Cultura de intolerância e julgamento social
Prates aponta que existe uma cultura enraizada que responsabiliza pais e cuidadores pelo controle absoluto do comportamento infantil. Essa dinâmica reforça a ideia equivocada de que castigos físicos seriam a única estratégia eficaz para disciplinar crianças.
"Precisamos ser tolerantes com momentos em que as crianças apresentam comportamentos considerados inadequados, oferecendo estratégias calmas para que se acalmem, sem que isso seja confundido com negligência", orienta a especialista.
Dados alarmantes sobre violência doméstica
Uma pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, realizada pelo Datafolha com mais de 2.200 entrevistados em todo o Brasil, revela números preocupantes:
- 29% dos entrevistados admitiram usar práticas violentas, como palmadas e beliscões, em crianças de até 3 anos
- 58% relatam colocar crianças de castigo como forma de disciplina
- 43% afirmam gritar ou brigar como estratégia educacional
Responsabilidade coletiva pela proteção
A pesquisadora defende que a proteção das crianças é responsabilidade compartilhada entre família, sociedade e Estado, conforme estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Isso significa estar vigilante, apoiar o cuidado e intervir quando necessário.
Para denunciar casos de agressão contra crianças, é possível contatar o Disque 100 (Governo Federal), o Disque-Denúncia 181 (Governo do Paraná), além do Conselho Tutelar, Ministério Público, Polícia Militar e Polícia Civil.
No caso de Francisco Beltrão, medidas protetivas foram solicitadas em favor da menina, de seu irmão e da mãe. O Conselho Tutelar acompanha o caso.
Com informações de G1 Paraná