Cérebro sobrecarregado: entenda os fenômenos que levaram pilotos a não perceberem alertas no acidente Voepass
Investigação do Cenipa aponta que pilotos do voo que caiu em Vinhedo sofreram limitações cognitivas naturais ao processar informações em situação de alta pressão. Especialista explica como até profissionais experientes podem deixar de notar avisos críticos.

Quando o cérebro não consegue processar tudo simultaneamente
O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do avião da Voepass em agosto de 2024, que vitimou 62 pessoas em Vinhedo (SP), revelou um aspecto importante da psicologia humana: a incapacidade do cérebro de processar todas as informações quando está sobrecarregado.
Entre os achados, a investigação identificou dois conceitos da neurociência que podem ter contribuído para o acidente: a cegueira por desatenção e a surdez por desatenção. Mas, contrariamente ao que os nomes sugerem, esses fenômenos não indicam problemas de visão ou audição nos pilotos, nem negligência profissional.
O que são esses fenômenos neurológicos
A cegueira por desatenção ocorre quando uma pessoa observa determinada informação visual, mas o cérebro, focado em outra tarefa, não a processa conscientemente. Em uma cabine de comando, um piloto pode estar vendo um alerta piscando no painel enquanto toda sua atenção está direcionada para outras demandas que considera mais urgentes naquele momento.
A surdez por desatenção funciona de maneira semelhante, mas com estímulos sonoros. Os avisos auditivos chegam normalmente aos ouvidos, mas a mente sobrecarregada não consegue atribuir o significado adequado àquele alerta.
Segundo Maria da Conceição Correia Pereira, psicóloga especialista em fatores humanos em ambientes complexos com mais de 30 anos atuando na aviação, esses mecanismos refletem limitações naturais do cérebro humano: "O nosso cérebro não registra tudo o que vemos ou ouvimos. Ele funciona como um filtro, selecionando continuamente as informações que considera mais relevantes naquele momento".
Por que isso ocorreu no voo fatal
Segundo o Cenipa, nos momentos finais do voo acidentado, os pilotos enfrentavam múltiplas demandas simultaneamente. Precisavam gerenciar acúmulo de gelo na estrutura da aeronave, lidar com falhas no sistema de degelo, manter comunicação com a torre de controle, executar procedimentos de aproximação e, ainda, mantinham conversas pessoais na cabine.
Nesse cenário de extrema pressão, investigadores observaram que a capacidade de reconhecer e processar alertas visuais e sonoros foi significativamente afetada. As gravações da cabine mostram que sinais sobre redução de desempenho foram emitidos enquanto os pilotos conversavam com o controle de tráfego, mas não há registro de que esses avisos tenham sido discutidos ou reconhecidos.
Não é falta de habilidade ou preparo
É fundamental esclarecer que esses fenômenos ocorrem inclusive com profissionais altamente treinados e experientes. A neurociência demonstra que, quando o cérebro está sob extrema carga cognitiva, alguns estímulos externos naturalmente deixam de ser priorizados, independentemente da expertise do profissional.
Uma analogia simples: um motorista que faz uma curva com atenção total no trânsito pode deixar a seta ligada sem perceber, mesmo com o aviso sonoro tocando. A atenção funciona como um holofote que ilumina apenas o que está sendo processado conscientemente naquele instante.
Como melhorar a segurança
Para reduzir esses riscos, especialistas apontam a necessidade de combinar três elementos:
- Treinamento específico sobre gerenciamento de atenção e carga cognitiva
- Desenvolvimento de tecnologia que compense as limitações naturais do cérebro humano
- Cultura organizacional voltada à prevenção e ao compartilhamento de experiências de risco
O próprio acidente motivou melhorias. A fabricante ATR desenvolveu nova versão do sistema de monitoramento de desempenho e criou intervalo mínimo de 60 segundos antes que um alerta desapareça, evitando que pilotos se acostumem com mensagens intermitentes e as descartem como insignificantes.
A mensagem final
Como conclui a especialista consultada: "A segurança não depende apenas de evitar erros. Ela depende de construir organizações capazes de antecipar as limitações humanas e criar sistemas defensivos que transformem essas limitações naturais em aprendizados".
Com informações de G1 Paraná